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Terça-Feira,
20 de Fevereiro de 2018




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O Gancho

Quem nunca usou essa expressão? O jornalista Mota relata experiência recente, que mostra de forma prática o que acontece nas atuais redações

São Paulo, 25 de abril de 2005

COMUNICAÇÃO 
Por Urariano Mota (*)
Fonte:
Direto da Redação

 
O gancho, para quem não sabe, no jargão jornalístico, é um fato que se ligue, que dê margem a outro, que sirva de ponte, de gancho, enfim, para a notícia. É claro que o “gancho” é uma burrice repetida por gerações de repórteres e redações no Brasil. Assim, por exemplo, uma reportagem ou artigos sobre o terrorismo, somente será possível em 11 de setembro, e sempre em onzes de setembro.

O gancho desconhece que os fatos, as notícias dos fatos se impõem por sua força, pelo inusitado, ou, notícia que os repórteres nem sonham, pelo tratamento. Sequer vêem que o mundo e a vida giram sem gancho. Que notícia, no inglês que tanto prezam, remete ao novo, e que o novo não é necessariamente o mais recente. Mas isto já seria esperar muito de quem corre e corre numa redação, para satisfazer um tempo de fábrica, de indústria, que associa Internacional aos Estados Unidos, que conhece a queima de florestas no Brasil somente no dia em que o NY Times noticia, e faz da Cultura o mesmo que show business. Seria esperar demais.

Onde, portanto, o gancho, antes que se pendure o autor nele? Aos fatos, nus e crus. Esta semana, recebi a honra da publicação de uma crítica a meu romance Os Corações Futuristas, no site www.novacultura.de . Ora, isso não acontece todos os dias. Quero dizer, um editor de um site na Alemanha sair de seus inúmeros trabalhos, ler um romance escrito em português, para sobre ele se curvar e escrever uma crítica, é meio raro. E é preciso que se acrescente, em um tempo de safadeza e canalhice geral, para elogiar um romance sem ganhar um só centavo por isso. Para falar pelo simples e humano fato de haver gostado da sua leitura. Diante disso, que faz este feliz autor? Ah, meus amigos, o quanto a felicidade é falaz, frágil e fugaz. O incauto autor, este incautor, liga para a redação de um dos jornais de sua província. Diálogo:

- Meu nome é Urariano....

- Quem?

- Urariano Mota, acrescento, porque eu sempre acho que o Mota ajuda muito.

- Sei..... e ????????

- Pois é, eu tive um romance que recebeu uma crítica favorável na Alemanha, e.... (Vou dizendo uma enxurrada de diabólicas asnices, numa enxurrada, que correm por uma Sibéria de gelo e silêncio.)

- Passe um mail.

- Eu já passei.

- Ah! É que hoje o sistema aqui no jornal travou, houve uma pane geral nos computadores. Ligue amanhã.

Chega amanhã. Ligo. Diálogo:

- Recebeu a mensagem?

- Deixa ver. Está aqui.... tererê, tererê....é. Olha, eu agora estou fechando a página.....Ligue amanhã.

Ligo. Diálogo:

- Aqui quem fala é Urariano...

- ?.... Você repete o assunto que a gente conversou antes? Aqui é uma correria...... hum, hum, sei, sei .... Sei. Claro, claro. Mas... Qual é o gancho?

- O gancho é um autor local receber uma crítica a um livro seu na Europa.

- E daí? O que tem a ver?

O leitor já vê que o chamado diálogo é uma composição de monólogos paralelos. De um lado, um autor envergonhado e pedinchão. De outro, uma jornalista que não vê a hora de se ver livre desse inconveniente. Na hora, isso evidentemente não ocorre a este autor. Na realidade, de um modo geral, os autores são péssimos no diálogo falado, ao vivo. Na hora, não lhe ocorre, não me ocorre dizer que o maior gancho é um autor ser conhecido em várias partes do mundo, Rússia, Alemanha, Itália, Espanha, Portugal, México, Argentina.... e ser absolutamente desconhecido na terra onde nasceu. Que isso é um fato tão paradoxal, tão irônico, que por si só mereceria uma notícia. Quando nada, um relato que recebesse o nome de O Gancho.

Na hora, apenas me ocorre perguntar:

- Se um cometa cair sobre a terra e abri-la ao meio, qual o gancho?

- O seu livro é um cometa?!

Sem resposta, desligo. E reconheço: isso, contado, ninguém acredita. Decididamente, essas coisas que acontecem à gente são meio sem gancho.

(*) Escritor, jornalista, colaborador do Observatório da Imprensa, membro da redação de La Insignia, na Espanha. Publicou o romance “Os Corações Futuristas”, cuja paisagem é a ditadura Médici. Tem inédito “O Caso Dom Vital”, uma sátira ao ensino em colégios brasileiros. Seus livros estão à venda na www.livrariaimperatriz.com.br 
 


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