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Diploma, questão de caráter

Decisão do STF que põem fim da obrigatoriedade de diploma para jornalistas divide opiniões

São Paulo, 23 de junho de 2009

COMUNICAÇÃO
Por Ruben Holdorf

Duas profissões chamaram a atenção do Brasil nos últimos sete meses: Direito e Medicina. No Espírito Santo, a Polícia Federal prendeu desembargadores, juízes e advogados, acusados da venda de sentenças – como era de se esperar, os magistrados saíram da prisão. Antigamente se tratava de uma prática baseada no compadrio. Hoje se transformou em negócio. Em Londrina, no Norte do Paraná, graduandos de Medicina da Universidade Estadual (UEL) resolveram promover uma arruaça dentro do pronto-socorro do hospital universitário, soltando fogos, agredindo verbalmente pacientes e funcionários. Tudo em nome das comemorações pela conclusão da residência e do curso.

O envolvimento e prisão de magistrados, promotores e demais profissionais das leis não é mais novidade no País da impunidade. Eles nunca duram muito tempo atrás das grades. E quando permanecem um pouco mais que o razoável, recebem todo o tipo de privilégio. Seria inédito se houvesse punição exemplar, inclusive com a destituição do direito ao exercício profissional, mesmo depois de cumprida a sentença. Mas no reino dos intérpretes da lei, só pichador pega 52 dias de cana. Afinal, o Brasil é o paraíso dos advogados e isso não tem a menor possibilidade de se tornar uma praxe. Eles sequer são conduzidos aos tribunais. Em relação aos “médicos”, apesar de provas contundentes, também não vão para a cadeia, mesmo que esquartejem seus pacientes. A Justiça pode prender o doutor Jekyll, mas nunca colocará no banco dos réus o senhor Hyde.

Anualmente, a OAB realiza um provão para autorizar o direito ao exercício profissional dos recém-formados, candidatos a advogados. Uma minoria consegue alcançar a nota mínima para iniciar a carreira advocatícia. Aqueles desembargadores, juízes e advogados espírito-santenses e capixabas, acrescentados a outros milhares de pretensos defensores da lei, também culpados e condenados nas diversas instâncias, passaram na prova da OAB. Não obstante seus esforços de conhecimento jurídico, eles reprovaram no teste de caráter. Há quase um ano, a construtora Camargo Corrêa estampou um anúncio abrindo vagas para engenheiros civis, com a condição de que não apresentassem diploma de certa universidade. Seria interessante se a sociedade boicotasse os graduados da UEL, já que, segundo os arruaceiros, a baderna de final de curso faz parte da tradição. E que desaforada a oradora da turma ao defender os colegas de bar!

A despeito do deslumbramento de advogados sem escrúpulos pelo mundo do crime organizado e da falta de ética, humanidade e caráter de egressos da Medicina, a malfadada Justiça brasileira questionou a legalidade da obrigatoriedade do diploma de Jornalismo para o exercício da profissão e sentenciou seu fim na quarta-feira, 18. Se os cursos de Jornalismo revelam problemas de qualidade, encontrando-se desfocados da realidade de mercado, o que dizer a respeito de Direito e Medicina? Seus diplomas não deveriam ser questionados?

Não há dúvida que alguns advogados, médicos, engenheiros, psicólogos, historiadores e até religiosos produzam bons textos, sejam cidadãos de notável reconhecimento público e de conduta moral ilibada. Suas opiniões continuamente são aceitas como artigos, face os profundos conhecimentos revelados nas áreas em que atuam, nos moldes das redações dissertativas, semelhante àquelas do ensino médio. Entretanto, isso não lhes daria o direito a requererem a prerrogativa ao exercício do jornalismo e muito menos o de solicitar o fim da obrigatoriedade do diploma de Jornalismo para serem repórteres e editores. Levanta-se, aqui, desde a malfadada quarta-feira, 18, a bandeira contra a obrigatoriedade do diploma para o exercício da advocacia, cujos profissionais são os que mais se interessam pela desorganização da classe que vigia suas ações e cujo comportamento é incontestável.

Gostem ou não, graças à constante atuação do jornalismo na sociedade brasileira, o País se libertou das amarras da opressão. Pode ser que daqui a alguns anos, devido à má gestão das empresas de comunicação, a tirania volte a ocupar a primazia do poder. Por trás dessa batalha se escondem os verdadeiros mandantes do assassinato do jornalismo, os patrões, os empresários, proprietários das grandes corporações jornalísticas brasileiras, interessados em controlar pelo salário e privilégio as ações dos repórteres nas redações e, assim, conservar as relações com os governantes da pior estirpe. Nenhum deles se preocupa com a situação social, econômica, educacional, de infraestrutura, de segurança. O que eles desejam são os polpudos anúncios da Petrobras, do Banco do Brasil, da Caixa Econômica Federal, de editais públicos. Eles farejam o dinheiro da corrupção. São lacaios. Advogados, engenheiros, médicos e outros profissionais não compreendem o jogo de forças e interesses subterrâneos ao detonar a obrigatoriedade do diploma de jornalismo. Fracassados em suas áreas, eles se deslumbraram com o jornalismo, pretendendo entrar pela porta dos fundos nas redações.

A alegação de que todos têm o direito à liberdade de expressão e, portanto, poderiam, em tese, exercer o jornalismo, distorce o próprio princípio de liberdade. De acordo com a Constituição, todos têm direito ao livre pensamento e devem recorrer à imprensa. Todavia, quem trabalha com os dados e os apura necessita de uma formação específica. Bons argumentadores redigem artigos com maestria. Contudo, estruturar uma reportagem requer técnica e perspicácia. E isso não se aprende nos cursos de Direito, Engenharia, Medicina, História, Letras, Arquitetura ou Relações Públicas. Acima de qualquer técnica e capacidade persuasiva, clareza de ideias, disposição em ouvir todas as vozes possíveis, cedendo-lhes espaço, sobressai-se o caráter.

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Ruben Holdorf é jornalista graduado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e é mestre em Comunicação, Educação e Administração, e outro em Educação. Foi professor da UFPR e atualmente leciona no curso de Jornalismo do Unasp e é diretor editorial da Agência Brasileira de Jornalismo (ABJ).


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